A solidão de construir algo (e por que ela é o preço, não o bug)
A solidão de construir não é ausência de gente. É a presença de uma visão que ninguém mais consegue carregar por você. Ela não é o sinal de que você errou. É o caminho.
A solidão não é o sinal de que você errou o caminho. É o caminho.
Tem uma coisa que ninguém te conta quando você decide construir algo.
Te contam do dinheiro que pode vir, ou não vir. Te contam das noites mal dormidas, dos boletos, do risco. Te mostram os fundadores no palco, os números na tela, as fotos de saída com champanhe na mão. Te vendem a parte ruidosa, a parte que cabe num post, a parte que rende aplauso. Mas tem uma parte que não cabe em lugar nenhum, e é justamente essa que pesa mais no fim do dia: você vai ficar sozinho. Não sozinho de não ter gente por perto. Sozinho de um jeito mais fundo, mais difícil de nomear, mais difícil de mostrar pra alguém. Sozinho dentro da sua própria cabeça, num cômodo onde quase ninguém consegue entrar com você, por mais que ame você.
Demorei pra entender isso. Por muito tempo achei que era um defeito meu. Que se eu fosse melhor de comunicar, mais articulado, mais paciente em explicar, as pessoas iam finalmente ver o que eu via. Eu sentava na mesa de bar, tentava traduzir o que estava montando, e via o olhar do outro lado escorregar. Educado, atencioso, mas escorregando. A pessoa gostava de mim, torcia por mim, e mesmo assim não estava ali, não dava pra estar ali. E eu voltava pra casa com aquela sensação esquisita de ter falado muito e dito nada, de ter aberto o peito numa língua que ninguém na mesa falava.
A virada foi parar de tratar isso como um problema a ser resolvido.
Por que quase ninguém vai entender
Quando você constrói algo, você passa a maior parte do tempo num futuro que só existe na sua cabeça. Você está olhando pra uma coisa que ainda não tem forma no mundo. Um produto que não existe. Um sistema que ainda é desenho num caderno. Uma versão da empresa, da sua vida, de você mesmo, que ainda não chegou e talvez nunca chegue. Você mora lá. Acorda lá. Toma banho pensando lá. Atravessa o jantar com a cabeça lá, mesmo de corpo presente na cadeira.
Mas as pessoas ao seu redor, com todo amor que elas têm por você, moram no presente. E o presente delas é legítimo, é real, é onde a vida de verdade acontece. Elas te perguntam como foi o dia e querem uma resposta de tamanho normal, uma resposta que caiba na pausa entre um gole e outro. Você tem dentro do peito uma coisa do tamanho do mundo e a pergunta cabe numa frase. Esse descompasso não é maldade de ninguém, nem falta de interesse. É só a distância entre quem está olhando pro chão que pisa e quem está olhando pro horizonte que inventou. São dois lugares diferentes. Dá pra se amar de um pro outro, mas não dá pra estar no mesmo ao mesmo tempo.
Eu lembro de uma madrugada, faz um tempo, sozinho em frente ao computador resolvendo um problema bobo de uma coisa que provavelmente quatro pessoas no mundo iam usar. Três da manhã. E me bateu uma clareza meio cruel: não tinha ninguém pra ligar naquela hora que fosse entender por que aquilo importava tanto pra mim. Não porque eu não tenho gente boa na vida, tenho, gente que eu amo e que me ama de volta. Mas porque aquele pedaço específico de obsessão, aquela coisa que me fazia estar acordado às três da manhã caçando uma vírgula no meio de mil linhas, era intransferível. Era só meu. E ali, naquela madrugada, em vez de me sentir abandonado, eu senti uma coisa que demorei muito pra reconhecer como paz.
A solidão de construir não é ausência de pessoas. É a presença de uma visão que ninguém mais consegue carregar por você. São coisas diferentes, e confundir uma com a outra me custou anos.
O que a gente faz de errado com ela
A primeira reação, quase sempre, é tentar curar a solidão diluindo a visão.
Você começa a explicar menos. Começa a falar de coisas mais palatáveis, mais fáceis de assentir com a cabeça. Pega a sua ideia gigante e corta os cantos pra ela caber na conversa, pra alguém finalmente dizer "nossa, que legal". E por um segundo dá um alívio gostoso. Você se sentiu visto. Mas é um alívio que cobra caro, porque o que foi visto não foi você. Foi uma versão encolhida sua, aparada, fácil de digerir. Você trocou a verdade do que está construindo por um pouco de companhia, e os dois saem perdendo nesse negócio, a verdade e a companhia.
A segunda reação é o oposto, e é igualmente armadilha: você vira amargo. Decide que ninguém entende mesmo, se tranca, transforma a solidão em superioridade. "Eles não estão no meu nível." Isso é mentira, e é uma mentira confortável justamente porque te poupa do trabalho de continuar amando gente que não habita o seu mundo. Mas te deixa mais sozinho ainda, e dessa vez sozinho de verdade, sozinho de orgulho, que é o pior tipo de todos, porque você mesmo levantou as paredes tijolo por tijolo e ainda chamou isso de lucidez.
Levou tempo pra eu entender que a saída não é nenhuma das duas. Não é diluir e não é se isolar. É aceitar que existe um cômodo dentro de você onde só você mora, e tudo bem que seja assim. Esse cômodo não precisa de visita. Ele precisa de você presente dentro dele, fazendo o trabalho em silêncio, e de você inteiro fora dele, presente com quem você ama, sem cobrar deles a chave de um lugar que nunca foi feito pra eles entrarem. O erro não é ter o cômodo. O erro é querer que ele tenha porta pra todo mundo, ou pior, querer mudar pra dentro dele e morar ali sozinho o resto da vida.
A solidão é o preço, não o bug
Acho que a frase que mais me ajudou foi essa, e ela é dura de engolir: a solidão de construir não é um erro do sistema. É uma característica dele.
Toda vez que você escolhe ver algo que os outros ainda não veem, você está, por definição, escolhendo um lugar onde os outros ainda não estão. Não dá pra estar à frente e acompanhado ao mesmo tempo. Se todo mundo já enxergasse o que você enxerga, não seria visão, seria consenso, e consenso não constrói nada novo porque o novo já estaria construído. O preço de enxergar antes é caminhar um trecho sozinho. Sempre foi assim, com todo mundo, em toda época. As pessoas que você admira, as que fizeram coisas que mudaram alguma coisa de verdade, todas pagaram esse pedágio em silêncio. A diferença é só que ninguém fotografa essa parte da estrada. A foto é sempre na chegada, nunca no trecho deserto do meio.
E tem uma libertação enorme em parar de esperar que esse pedágio desapareça. Porque enquanto você acha que a solidão é sinal de que algo está errado, você gasta uma energia absurda tentando consertar o que não tem conserto. Você fica esperando o dia mágico em que vão te entender, em que a visão vai ficar óbvia pros outros, em que você vai poder finalmente dividir o peso com alguém. Esse dia não vem do jeito que você imagina. O que vem, se você continuar, é o resultado. E aí as pessoas entendem o resultado, claro, mas o resultado é a parte fácil de entender. A travessia, ninguém vai entender, e tudo bem, porque a travessia foi sua. Ela não era pra ser entendida. Era pra ser feita.
Quando eu parei de tratar a minha solidão como uma falha de caráter ou um defeito de comunicação, ela ficou mais leve. Não sumiu, ninguém me prometa que some, porque não some. Ficou mais leve. Virou um espaço em vez de um buraco. Um lugar de onde eu trabalho, penso, decido, em vez de um lugar do qual eu tento fugir o tempo todo correndo atrás de gente pra preencher. E o mais engraçado é que, de um jeito que parece contradição mas não é, isso me deixou mais perto das pessoas. Porque eu parei de exigir delas uma coisa que elas não tinham como me dar. Parei de chegar na mesa de bar precisando ser compreendido na minha totalidade, do começo ao fim, com legenda. Cheguei só querendo estar ali, presente, no presente delas, que é um presente bom e que eu quase perdi de tanto morar no meu futuro. A visão eu carrego sozinho. A vida eu divido. Confundir as duas coisas era a origem de quase todo o meu sofrimento, e eu nem sabia.
O que eu queria ter ouvido
Se você está construindo algo agora, qualquer coisa, uma empresa, um produto, uma versão diferente da sua própria vida, e está se sentindo sozinho nisso, eu queria te dizer uma coisa que ninguém me disse na hora em que eu mais precisava ouvir.
Você não está doente. Você não falhou em encontrar as pessoas certas. Você não é incompreendido por algum azar cósmico. Você está sentindo exatamente o que se sente quando se carrega algo que ainda não existe. Esse peso específico no meio do peito, essa sensação de estar a um vidro de distância de todo mundo mesmo no meio de uma sala cheia e barulhenta, isso é só o corpo registrando, do jeito dele, que você escolheu olhar pra frente. É desconfortável porque era pra ser desconfortável. Conforto e construção raramente moram no mesmo lugar, e quando moram, geralmente é porque você parou de construir e nem percebeu.
A solidão vai e volta, em ondas. Tem semana que ela quase não aparece, em que a vida flui e você nem lembra dela. Tem madrugada que ela senta do seu lado e fica, sem pressa de ir embora. Pare de brigar com ela nessas horas. Pare de achar que a presença dela significa que você tomou a decisão errada lá atrás. Ela é só o eco do espaço que você abriu indo na frente. Quem anda no meio da multidão não escuta o próprio passo. Quem se afasta um pouco, escuta. Esse eco assusta no começo, mas é só o som de você ocupando um lugar que ainda não tinha gente. Quem te oferecer a travessia sem a parte vazia está te oferecendo um folheto de viagem, não a estrada.
E talvez, com o tempo, devagar e a duras penas, você descubra o que eu descobri: que aprender a ficar bem sozinho dentro da sua própria cabeça não é um consolo de quem não tem companhia. É a fundação de tudo. Porque quem não consegue habitar o próprio silêncio vai construir a vida inteira fugindo dele, e quem foge do próprio silêncio nunca chega a lugar nenhum que valha a pena ter chegado. O barulho do mundo não te leva pra frente. Ele te distrai do fato de que você não saiu do lugar. É a sua capacidade de sentar sozinho com a coisa difícil, sem desistir, sem diluir, sem ninguém aplaudindo do lado, que te leva. Sempre foi essa, nunca foi outra.
Era isso que eu queria ter ouvido, lá atrás, na primeira madrugada das três da manhã. Que a solidão não era o sinal de que eu tinha errado o caminho. Era o caminho. E que ele só ficava solitário porque era meu, e porque os caminhos que valem a pena costumam ser.
Um abraço, e segue.
Madureira
