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A matriz de conteúdo do Justin Welsh, adaptada para o LinkedIn brasileiro


Justin Welsh cresceu no LinkedIn cruzando poucos temas com oito formatos de post numa planilha. O que é a matriz, quais formatos atravessam bem para o português e quais pedem ajuste, uma matriz preenchida de ponta a ponta, posts de antes e depois e um exercício com gabarito.
- O problema
- Você sabe sobre o que fala, mas toda semana senta para escrever no LinkedIn e o assunto parece esgotado, ou todo post sai no mesmo formato.
- Para aplicar
- Monte uma matriz com quatro temas do seu trabalho e os oito formatos, preencha as 32 células com uma pauta concreta cada e escreva um post completo a partir da célula que mais te incomodou.
Quem escreve no LinkedIn sobre o próprio trabalho costuma passar por um momento específico, lá pelo terceiro mês.
Os primeiros posts saíram fácil, porque havia anos de assunto acumulado. Depois, a fonte parece secar. A pessoa ainda sabe tudo que sabia, mas tem a sensação de que já disse tudo. E os posts começam a sair iguais: mesmo tamanho, mesma estrutura, quase sempre uma lição tirada de uma história.
O assunto não acabou. O que acabou foi o jeito de olhar para ele.
O americano Justin Welsh resolveu isso com uma planilha. Ele saiu de um emprego de executivo de vendas, construiu um negócio de uma pessoa só em cima do LinkedIn e passou a ensinar o método num curso chamado LinkedIn Operating System. Uma das peças do curso é a matriz de conteúdo: poucos temas de um lado, oito formatos de outro, e cada cruzamento vira uma pauta.
Este estudo explica a matriz, mostra quais formatos atravessam bem para o português e para o LinkedIn daqui, traz uma matriz preenchida inteira e termina com um exercício com gabarito.
Sobre os exemplos. A matriz preenchida, os posts de antes e depois e as pessoas citadas como exemplo foram escritos por mim para ilustrar o método. Números e situações são ilustrativos. Na hora de usar, troque pelo seu trabalho real.
A matriz em uma imagem
A ideia é simples o bastante para caber numa frase: um tema escrito em oito formatos diferentes rende oito posts diferentes.
Nas linhas, os temas sobre os quais você escreve. Nas colunas, os formatos. Cada célula é uma pauta.
PRÁTICO HISTÓRIA ANÁLISE CONTRÁRIO OBSERVAÇÃO X vs Y HOJE vs AMANHÃ LISTA
tema 1 ......... □ □ □ □ □ □ □ □
tema 2 ......... □ □ □ □ □ □ □ □
tema 3 ......... □ □ □ □ □ □ □ □
tema 4 ......... □ □ □ □ □ □ □ □
4 temas × 8 formatos = 32 pautas
Os oito formatos, como circulam a partir do material do Welsh (os nomes originais são actionable, motivational, analytical, contrarian, observation, X vs. Y, present vs. future e listicle), em tradução minha:
- Prático. Ensina a fazer uma coisa específica, passo a passo.
- História. Conta a trajetória de alguém (você ou outra pessoa) que fez algo difícil.
- Análise. Explica por que alguma coisa funciona do jeito que funciona.
- Contrário. Vai contra um conselho comum do seu meio e explica por quê.
- Observação. Aponta uma tendência que pouca gente percebeu.
- X vs. Y. Compara duas coisas: ferramentas, métodos, escolhas, empresas.
- Hoje vs. amanhã. Compara como algo é feito hoje com como vai ser.
- Lista. Junta recursos, erros, lições ou passos sobre o tema.
O ganho vai além da quantidade: a matriz força variedade. Quem escreve sempre no formato "história com lição" acostuma o leitor a um tipo de post, e ele passa a pular. A matriz obriga a girar.
Por que funciona
Três motivos, na minha leitura.
1. Separa duas decisões que costumam vir juntas. Quando você senta para escrever sem matriz, precisa decidir ao mesmo tempo o assunto e o ângulo. Com a matriz, o assunto já está escolhido (a linha) e o ângulo também (a coluna). Sobra escrever.
2. Revela os formatos que você evita. Quase todo mundo tem um ou dois formatos de conforto e um ou dois que nunca usa. Preencher a matriz mostra o buraco. Em geral, os formatos que você evita são os que mais te diferenciariam, porque são os que exigem posição (contrário, observação) ou prova (análise).
3. Reduz o tema a um número pequeno. O Welsh insiste em poucos temas. Com quatro temas, o leitor entende rápido sobre o que você fala. Com quinze, o perfil vira um agregador.
O que muda no LinkedIn brasileiro
A matriz atravessa bem, mas três formatos pedem cuidado aqui.
"História" sem tom de palestra motivacional
O formato original se chama motivational: histórias inspiradoras de quem fez algo extraordinário. No LinkedIn brasileiro, esse formato tem um problema de reputação. O post de superação genérico (acordei às 5h, fui rejeitado 37 vezes, hoje sou CEO) virou piada interna da rede.
A adaptação que eu faço: a história precisa ter um custo concreto e um detalhe que só quem viveu sabe. Não "eu quase desisti", mas "eu fiquei três meses atendendo um cliente que pagava metade do que custava, porque tinha medo de perder o único contrato". O custo é o que separa a história da palestra.
"Contrário" sem lacração
O formato contrário funciona muito bem no Brasil, talvez bem demais. O risco é a polêmica vazia: discordar de algo para gerar comentário, sem argumento.
A régua que eu uso: o post contrário precisa ter a frase "eu já pensei o contrário" (ou o equivalente), e mostrar o que fez você mudar. Discordar do senso comum é fácil. Mostrar por que você mudou de ideia é o que dá credibilidade.
"Lista" que não vira índice
Lista em português, no LinkedIn, tem uma armadilha: o item curto demais. "1. Planeje. 2. Execute. 3. Revise." Isso é sumário, não conteúdo. Cada item da lista precisa de pelo menos uma frase de explicação ou um exemplo. Se não cabe, a lista tem itens demais.
Os outros cinco formatos (prático, análise, observação, X vs. Y, hoje vs. amanhã) entram sem ajuste. O único cuidado é com o "hoje vs. amanhã": previsão sem fundamento envelhece mal, então eu prefiro "o que já mudou e quase ninguém percebeu" a "o que vai acontecer em cinco anos".
Uma matriz preenchida de ponta a ponta
Para mostrar o método funcionando, preenchi uma matriz para uma pessoa fictícia: Fernanda, contadora que atende pequenas empresas de serviço. Quatro temas: pró-labore e retirada, regime tributário, fluxo de caixa, e a relação do dono com o contador.
| Pró-labore | Regime tributário | Fluxo de caixa | Dono e contador | |
|---|---|---|---|---|
| Prático | Como definir o pró-labore no primeiro ano | Como saber se vale revisar o regime este ano | Uma planilha de caixa de uma aba só | O que mandar para o contador todo dia 5 |
| História | O cliente que pagava a escola do filho pela conta da empresa | A troca de regime que eu recomendei e deu errado | O mês em que uma cliente quase não pagou a folha | O cliente que eu perdi por responder tarde |
| Análise | Por que a mistura de contas esconde o lucro real | Por que o regime "mais barato" depende da folha | Por que empresa lucrativa fica sem caixa | Por que o contador vira só despachante de guia |
| Contrário | Eu já recomendei pró-labore baixo. Parei | O Simples nem sempre é o mais simples | Faturar mais pode piorar o caixa | Contador barato pode sair caro (com conta) |
| Observação | Dono de empresa pequena que nunca tirou férias pagas por ela | Mais clientes perguntando de regime depois de cada notícia de reforma | A maquininha antecipando recebível sem o dono saber | Cliente que só aparece em março |
| X vs. Y | Pró-labore vs. distribuição de lucro | Simples vs. Lucro Presumido para serviço | Regime de caixa vs. competência, na prática | Contador de mensalidade vs. contador de projeto |
| Hoje vs. amanhã | O que já mudou na forma como o dono se paga | O que a reforma tributária já mudou no planejamento | Pix e o fim do "o dinheiro entra na sexta" | O contador que só entrega guia vs. o que lê o negócio |
| Lista | Cinco sinais de que o seu pró-labore está errado | Quatro perguntas antes de trocar de regime | Seis despesas que todo dono esquece no caixa | O que perguntar na primeira reunião com o contador |
Trinta e duas pautas, de quatro temas. Algumas são melhores que outras, e isso é esperado: a matriz gera opções, você escolhe.
Repare em duas coisas:
- As células de "contrário" e "história" são as que exigem a Fernanda. Ninguém mais tem o cliente que ela perdeu ou a recomendação que deu errado. São as células que nenhum concorrente consegue copiar.
- As células de "prático" e "lista" são as que qualquer contador escreveria. Elas são úteis, trazem gente nova, mas não diferenciam. Uma boa semana mistura os dois tipos.
Da célula ao post: antes e depois
Pegando a célula Contrário × Pró-labore: "Eu já recomendei pró-labore baixo. Parei."
Antes (o post que sai sem a matriz, no formato de conforto):
Pró-labore é um tema muito importante para empresários. Muitos não sabem quanto devem retirar e acabam tomando decisões erradas. O ideal é conversar com seu contador para definir um valor adequado à realidade do seu negócio, considerando os impostos e as necessidades pessoais. Planejamento é tudo! Conte comigo.
Sem ângulo. Qualquer contador poderia ter escrito. O leitor passa reto.
Depois (formato contrário, com a régua do "eu já pensei o contrário"):
Por anos eu recomendei que meus clientes tirassem o menor pró-labore possível.
A lógica parecia boa. Pró-labore tem INSS. Distribuição de lucro, em geral, não tem. Então o certo seria tirar o mínimo como pró-labore e o resto como lucro.
Parei de recomendar isso no dia em que um cliente foi pedir um financiamento.
A renda comprovada dele era o pró-labore mínimo. No papel, ele ganhava quase nada. O banco ofereceu um valor que não comprava nem metade do que ele precisava.
A economia de imposto de alguns anos custou a ele um imóvel.
Hoje eu faço a conta diferente. Primeiro: o que o cliente vai precisar comprovar nos próximos anos? Financiamento, aluguel, aposentadoria. Depois, o pró-labore que cobre isso. Só então o que sobra vai como lucro.
Pró-labore baixo economiza imposto este ano e cobra a conta depois.
Se você é dono de empresa pequena, pergunte ao seu contador quanto você comprova de renda hoje. A resposta costuma surpreender.
O segundo post só existe porque a coluna "contrário" obrigou a pergunta: no que eu acreditava e deixei de acreditar? A história do cliente entra como prova, não como enfeite.
(Uma observação de cuidado: o exemplo é ilustrativo. Regras de contribuição e de distribuição de lucro mudam, e cada caso tem detalhe. Se você for escrever sobre tributo, a precisão técnica vem antes do formato.)
Como rodar a matriz na semana
O Welsh trata a matriz como banco de pautas, não como calendário. A forma que eu proponho para quem publica três vezes por semana no LinkedIn:
- Preencha a matriz inteira uma vez por trimestre. Uma tarde. Quatro temas, oito formatos, trinta e duas células.
- Toda segunda, escolha três células de colunas diferentes. Nunca dois posts do mesmo formato na mesma semana.
- Pelo menos uma das três precisa ser de uma coluna "sua" (história, contrário ou observação). É o que diferencia.
- Marque a célula usada. Uma célula pode render mais de um post ao longo do tempo, com ângulos diferentes, mas a marca evita repetir sem querer.
- No fim do trimestre, olhe quais colunas renderam mais conversa e quais temas cansaram. Troque um tema, se for o caso, e preencha de novo.
Com três posts por semana, trinta e duas células duram por volta de dez semanas. Um trimestre, com folga para o que acontecer no caminho.
Os quatro erros mais comuns
1. Temas largos demais. "Marketing" não é tema de matriz, é área. "Anúncio para clínica de estética" é tema. Quanto mais estreito, mais fácil preencher as células.
2. Preencher a célula com o tema, e não com a pauta. "Pró-labore × Prático" não é pauta. "Como definir o pró-labore no primeiro ano" é. Se a célula não pode virar título amanhã, ela ainda está vazia.
3. Fugir das colunas difíceis. Quem deixa "contrário" e "observação" em branco está deixando em branco justamente o que faria o perfil ser lembrado.
4. Tratar a matriz como fórmula. Ela gera pautas. O post continua precisando de uma ideia só, um exemplo concreto e uma frase final que fica. A matriz resolve o "sobre o que", não o "como".
Exercício
Duas partes. Separe uma tarde.
Parte 1. Monte a sua matriz: quatro temas do seu trabalho nas linhas, os oito formatos nas colunas. Preencha as 32 células com uma pauta concreta cada (que poderia virar título amanhã).
Parte 2. Escolha a célula que mais te incomodou ao preencher, aquela em que você hesitou, e escreva o post completo, entre 150 e 300 palavras.
Tente antes de ler o gabarito.
Gabarito
Parte 1: como conferir a sua matriz
Passe cada célula por três perguntas:
- Dá para virar título amanhã? Se a célula diz só "regime tributário × lista", ela está vazia. Reescreva até ter um recorte: "quatro perguntas antes de trocar de regime".
- A célula de "contrário" tem algo em que você já acreditou? Se o "contrário" é contra uma ideia que você nunca teve, ele tende a virar ataque. Procure o que você mudou de opinião.
- A célula de "história" tem custo? Se a história não tem perda, risco ou erro, ela é anedota. Procure o momento em que algo deu errado.
Um sinal de matriz boa: as linhas de "história", "contrário" e "observação" estão cheias de coisas que só você poderia escrever. Um sinal de matriz fraca: daria para trocar o seu nome pelo de um concorrente e nenhuma célula mudaria.
Parte 2: como conferir o seu post
O post passa se:
- Tem uma ideia só, que dá para dizer em uma frase.
- A primeira linha cabe antes do "ver mais" e já diz de que se trata.
- Tem uma prova concreta: um caso, um número seu, uma cena.
- Termina numa frase que alguém repetiria, e não num resumo nem numa pergunta genérica.
A célula que mais incomoda costuma render o melhor post da matriz. O incômodo, quase sempre, é sinal de que ali tem uma posição sua que você ainda não tinha dito em voz alta.
Para continuar
A matriz resolve as pautas. O que ela não resolve é o resto da operação no LinkedIn: o perfil que explica você em dez segundos, a cadência que cabe na semana e a rotina de comentários e mensagens que transforma leitor em conversa. É disso que trata o LinkedIn OS. E se a ideia é usar a mesma pauta em mais de uma rede, o Conteúdo OS traz o banco de ideias e o fluxo da semana para isso.
Fontes
- Justin Welsh, The LinkedIn Operating System, curso em que a matriz de criação de conteúdo é um dos módulos. Página consultada em 14/10/2026.
- Os oito formatos estão citados pelos nomes em inglês como aparecem nas descrições públicas do método; as definições em português são tradução e resumo meus.
- Os ajustes para o LinkedIn brasileiro (história com custo, contrário com "eu já pensei o contrário", lista sem item vazio), a rotina trimestral e todos os exemplos são meus.