O medo não vai embora, você aprende a construir com ele do lado
Esperei anos virar a pessoa que não sente medo. Ela não existe. Coragem não é a calma de quem não sente nada, é o que você faz com as mãos enquanto elas tremem.
O medo nunca me deu férias
Eu te escrevo isto numa noite em que não consegui dormir.
Não foi insônia romântica, dessas que dão vontade de escrever poesia e acender uma vela. Foi medo mesmo. Daquele medo seco, que aperta o peito e fica perguntando, em loop, se você não acabou de tomar a decisão mais idiota da sua vida. Eu tinha acabado de mandar um sim que não dava mais pra voltar atrás. Um sim grande. E aí veio ele, pontual como sempre, sentou do meu lado na cama e ficou ali, me olhando, esperando que eu desse alguma satisfação.
Eu já tive uma fantasia muito específica sobre o futuro. A de que um dia eu ia "chegar lá". Que existia um patamar, lá no alto, onde a pessoa que eu queria ser morava. E que essa pessoa, quando eu finalmente virasse ela, não sentiria mais medo. Ela acordaria tranquila. Tomaria decisões grandes do jeito que a gente bebe água: sem pensar, sem suar, sem aquele frio que sobe do estômago e gela os dedos. O medo seria coisa do Gabriel antigo, o inseguro, o que ainda não tinha provado nada pra ninguém.
Demorei anos pra entender que essa pessoa não existe. E que ficar esperando virar ela era a forma mais sofisticada que eu já tinha inventado de não fazer nada.
Porque é isso que a gente faz, no fundo. A gente trata o medo como um aviso de que ainda não está pronto. "Quando eu me sentir mais seguro, eu lanço." "Quando eu tiver mais certeza, eu falo com ela." "Quando eu não estiver mais com medo, eu começo." E a gente espera. Espera o medo ir embora como quem espera a chuva passar pra sair de casa. Só que essa chuva não passa. Ela é o clima. É o ambiente inteiro onde qualquer coisa que valha a pena viver acontece. A gente fica na janela a vida toda, de guarda-chuva na mão, esperando uma estiagem que nunca vem.
Eu acho que ninguém me contou isso direito quando eu era mais novo. Me venderam coragem como ausência. Como se o corajoso fosse aquele cara que sente menos, que tem o sistema nervoso mais calmo, que olha pro abismo e dá de ombros. E aí eu olhava pro meu próprio medo, aquele turbilhão todo, e concluía, com uma lógica impecável, que eu não era feito da matéria certa. Que coragem era um traço de nascença, tipo altura ou cor de olho, e que na minha vez tinha faltado.
Mentira. Coragem não é a calma de quem não sente nada. É o que você faz com as mãos enquanto elas tremem.
Eu construí praticamente tudo que tenho tremendo. Cada decisão que mudou alguma coisa de verdade na minha vida, eu tomei antes de ter certeza. Sempre antes. A certeza, quando vinha, vinha depois, como um troféu que chega atrasado pra festa que já acabou e ninguém mais quer. Foi assim quando contratei a primeira pessoa sem ter caixa pra bancar ela com folga. Quando falei um preço em voz alta que fez minha própria garganta travar no meio da frase. Quando apertei publicar num texto que me deixava exposto demais, desses que dá vontade de deletar três segundos depois de postar. Toda vez, a mesma cena se repetia: eu, o medo, e um botão me esperando.
E aqui está a parte que ninguém te avisa: o medo não some quando dá certo. Eu já tive vitórias que, por toda lógica do mundo, deveriam ter me curado de uma vez. "Pronto, agora você provou, agora pode relaxar." Não funciona assim. O medo só troca de tamanho. Ele cresce junto com você, mantém a proporção certinha. Quanto maior a aposta, maior ele. Quanto mais gente passa a depender de você, mais alto ele fala. A pessoa que constrói coisas no mundo não é a que venceu o medo num combate épico. É a que aprendeu a trabalhar com ele sentado do lado, respirando no seu cangote, e mesmo assim manteve as mãos no teclado.
Demorou pra eu fazer as pazes com isso. Porque eu queria tanto que fosse só uma fase. Queria a versão de mim sem medo do mesmo jeito que criança quer ser adulta pra ninguém mandar nela, sem entender que adulto nenhum vive sem alguém ou alguma coisa mandando. E quando eu finalmente entendi que não ia chegar, que aquilo não era um obstáculo no caminho mas o próprio chão do caminho, teve um luto. Um luto pequeno, silencioso, sem velório. O enterro discreto da fantasia de uma vida tranquila.
Mas teve liberdade junto. Porque no instante em que você para de esperar o medo ir embora, você ganha de volta todo o tempo que gastava na sala de espera. Eu não preciso mais estar pronto. Ninguém nunca está. "Pronto" é uma palavra que a gente inventou pra adiar com elegância, pra dar à covardia um ar de planejamento responsável. O que eu preciso é estar disposto, que é uma coisa completamente diferente. Disposto a sentir o frio e fazer assim mesmo. Disposto a tremer e apertar o botão. Disposto a, no meio do tremor, lembrar que tremor não é veto. É só o corpo reconhecendo, do jeito dele, que aquilo importa.
E talvez seja isso que pouca gente fala em voz alta: o medo é um mapa. Ele aponta. As coisas que mais me deram medo de fazer foram, sem uma única exceção, as que mais mexeram comigo depois. O medo cresce na direção exata daquilo que você não quer perder. Você não tem medo do que é indiferente. Você tem medo do que ama, do que quer, do que ainda não conquistou mas deseja com uma intensidade que assusta você mesmo. Hoje, quando alguma coisa me dá um medo desproporcional, eu paro e presto atenção, porque ali tem informação. Ali tem alguma coisa que importa de verdade, escondida atrás do susto. O medo é a sombra que o desejo projeta no chão. Onde tem uma, tem a outra, do mesmo tamanho, inseparáveis.
Construir, no fim, é um ato emocional muito antes de ser técnico. A gente gosta de fingir que é planilha, estratégia, processo, método bonitinho com etapas numeradas. E é, claro, tem disso também. Mas o que move tudo por baixo é uma aposta nua: a de que vale a pena tentar uma coisa que pode não dar certo, na frente das pessoas, com o seu nome colado nela pra todo mundo ver. Toda construção honesta começa com uma confissão silenciosa de que você não sabe se vai funcionar. Quem te garante certeza antes de você começar está te vendendo alguma coisa, e quase sempre é algo caro.
Eu penso muito numa imagem ultimamente. A de que existem duas vidas possíveis pra mim, e em ambas o medo está presente, nas duas ele aparece. Na primeira, eu deixo ele dirigir. Ele decide o que eu tento, o que eu falo, até onde eu vou e onde eu paro. E o mais curioso é que essa vida não é mais segura, ela é só menor. Você não escapa do medo entregando o volante pra ele. Você só obedece, e ainda fica com a conta da vida que não viveu pendurada no pescoço. Na segunda vida, ele continua lá, no banco do passageiro, falando o tempo todo, comentando cada curva, mas sou eu quem dirige. Eu escuto, às vezes até concordo com ele, e sigo na minha direção mesmo assim. A diferença entre as duas vidas não é a quantidade de medo dentro do carro. É quem está com a mão no volante.
E eu escolho dirigir. Não porque parei de ter medo, mas justamente porque não vou parar nunca. Se ele vai estar aqui de qualquer jeito, comprou passagem pra vida inteira, que pelo menos esteja ao lado de uma vida que eu de fato escolhi viver, e não de uma que ele escolheu por mim enquanto eu ficava na janela esperando me sentir pronto.
Naquela noite sem dormir, lá pelas quatro da manhã, eu parei de brigar com ele. Não venci. Não teve vitória nenhuma. Só deitei do lado, deixei ele falar até cansar, até ficar sem assunto, e quando o sol começou a entrar pela fresta da janela, eu levantei e fui trabalhar no sim que tinha dado. As mãos ainda tremiam um pouco. Eu fiz assim mesmo.
Coragem não é a casa onde o medo não entra. É aprender a morar junto com ele e ainda assim chamar de lar.
Um abraço, e vai com medo mesmo.
Madureira
